BLOG
TRENDS//

19
AGO

A moda está desafiando a ideia de que devemos sempre buscar uma silhueta longilínea

Quem já não parou em frente ao espelho e deixou de usar uma peça só por que ela tinha um pouco mais de volume? Ou apenas largou no cabide aquele item que extrapola alguns centímetros de tecido? Tudo isso para não aparentar ser maior, não parecer baixa ou apenas não quebrar os velhos truques de styling que sempre nos ensinaram a alongar e afinar a silhueta.

A situação é comum e a pergunta que importa é: realmente precisamos parecer mais altas e mais magras? Se vestir não deveria ser algo divertido, que vai além da busca de uma imagem longilínea? Muitas marcas e estilistas acreditam que sim. Para essas mentes criativas, a moda cria uma história com os shapes, que pode nos ajudar a mudar a percepção que temos sobre os nossos corpos.

volume_2_0

Quando Rei Kawakubo apresentou a coleção Body Meets Dress, Dress Meets Body (algo como O Corpo Encontra o Vestido, o Vestido Encontra o Corpo, em tradução livre), durante o verão 1997, da Comme des Garçons, ela não apenas causou um estranhamento inicial com uma imagem provocativa de moda, mas pautou uma discussão com looks carregados de conceito. Usando volume, a estilista japonesa sugeriu que nossos corpos podem assumir formatos diversos de acordo com as roupas que usamos, e que não há problema algum em subverter o modelo tradicional da silhueta.

volume_0_0

Essa temporada ficou conhecida pela coleção Lumps and Bumps da marca, fazendo alusão aos enchimentos que a estilista aplicou nos vestidinhos estampados de xadrez vichy. Depois, ela acabou virando figurino da peça de balé Scenario, do coreógrafo Merce Cunningham, e, hoje, é uma das coleções mais representativas da designer, que sempre quis mesmo dar boas cutucadas nos padrões.

volume_1_0

Na década anterior a esse desfile, os anos 1980, as modelagens estavam preocupadas em valorizar as curvas dos corpos entendidos como esculturais. Mesmo em 1997, ano do desfile de Rei Kawakubo, Thierry Mugler também mostrava o quão fina uma cintura poderia ser em sua apresentação couture e Tom Ford comandava uma Gucci ultrassexy, bem diferente da imagem que temos hoje da etiqueta italiana, com a tutela de Alessandro Michele.
E o que essa história da Comme des Garçons tem a ver com a moda atual? Como ela pode nos ajudar a entender as tendências de hoje e nos fazer olhar de forma diferente para o nosso corpo quase 20 anos depois?

volume-na-passarela_1_1

No momento, alguns nomes se destacam quando o assunto é brincar com as formas. Rei Kawakubo continua a produzir esculturas para vestir e contar muita história com elas ao lado de nomes como Junya Watanabe e Fumito Ganryu. Mas há novos criadores que também subvertem a modelagem com volumes e sobras de tecidos. O designer canadense Steven Tai, por exemplo, sobrepõe camadas nos pontos mais incomuns para cumprir essa função.

volume-steven-tei_1_0

Na passarela de Rick Owens, o pano dá voltas e vira grandes nós com o trabalho de moulage, assumindo um visual pós-apocalíptico, típico da label.

volume_3_0

Jacquemus, quase como um cubista das artes visuais, lança mão de peças estruturadas e geométricas, saias redondas e blazers quadrados em seus desfiles.

volume-na-passarela_0_0

Andrea Jiapei Li, por sua vez, resgata as lembranças da infância e cria enormes casacos de neoprene, como se tivesse roubado o item do armário de alguém que veste alguns números a mais.

Captura de Tela 2016-08-19 às 11.31.05

E não foram apenas os designers conhecidos por looks abstratos que deram as cartas nesse jogo. Na mesma onda das peças oversized, a tradicional Céline deu folga ao corpo com amplos tricôs trabalhados.

volume_0_0

Já Stella McCartney foi de longo em um vermelho vibrante para garantir igual conforto.

volume_1_0

Além de tantas outras tendências que podemos pinçar das semanas de moda, a jaqueta, por exemplo, quando não é bomber, é puffer, e explode em formato arredondado na parte de cima do look.

volume_2

As mangas extralongas instauradas pela Vetements, que pouco se importam quando o braço termina, viraram um detalhe icônico da estação.

volume_4

Isso tudo não está enclausurado na passarela. A ideia vai para as ruas e reflete no bom e velho jeans que, quem diria, desgrudou das pernas. Já até comentamos, aqui, em ELLE, uma possível aposentadoria da skinny, que deixou o posto vago para modelos mais folgadinhos, como o mom jeans. Com ele, entram na lista outras peças que não estão muito preocupadas em alongar a silhueta, como a pantacourt e a flatform.

Estamos, sobretudo, em um momento das roupas maximizadas, da inspiração esportiva despretensiosa e da ruptura com os antigos rituais de proporção. Não se trata de passar a esconder fervorosamente os belos contornos que o corpo tem, mas se permitir aceitar as novas formas que ele pode ganhar. Trata-se de quebrar algumas regras e, convenhamos, não há coisa melhor de se fazer quando o assunto é moda: arriscar.

Fonte: Elle